Netuno em Áries e o fim da espiritualidade New Age

A sensação de vazio que hoje atravessa muitos discursos espirituais não é subjetiva, nem individual. Trata-se do esgotamento de um imaginário coletivo que dominou o Ocidente nas últimas décadas: a espiritualidade New Age. A entrada de Netuno em Áries sinaliza, em nível simbólico e histórico, o fim desse modelo — não porque a espiritualidade acabou, mas porque essa forma específica de buscar sentido perdeu conexão com a realidade.

Entenda neste artigo de onde veio a espiritualidade new age, por que ela floresceu sob Netuno em Peixes e por que ela se torna insustentável no novo ciclo que se inicia.

Netuno na astrologia: fé, mito e ilusão coletiva

Na astrologia mundana, Netuno atua como princípio organizador do imaginário coletivo. Ele não descreve crenças individuais isoladas; ao contrário, revela os sistemas simbólicos através dos quais uma sociedade inteira responde a perguntas fundamentais: o que dá sentido à vida, onde se deposita a esperança e como se lida com o sofrimento.

Historicamente, mudanças no trânsito de Netuno frequentemente coincidem com o surgimento de movimentos religiosos difusos, messianismos, utopias espirituais e, simultaneamente, com períodos de confusão simbólica. Ou seja, sempre que Netuno muda de signo, há uma reorganização das referências coletivas de fé, idealismo e crença.

Em termos culturais, Netuno evidencia aquilo em que uma época prefere acreditar e, ao mesmo tempo, aquilo que escolhe não enxergar. Quando mal integrado, ele tende a favorecer a fuga da realidade, muitas vezes na forma de idealizações espirituais que distorcem a percepção do mundo concreto.

As raízes da espiritualidade New Age: teosofia, esoterismo moderno e colonialismo cultural

A espiritualidade New Age não nasce nos anos 1970, como muitas vezes se afirma. Suas bases remontam ao final do século XIX, com a Teosofia, fundada por Helena Blavatsky. A proposta teosófica já trazia elementos centrais que seriam reciclados mais tarde:

  • a ideia de uma verdade espiritual universal acima das culturas;
  • a hierarquização de consciências e “níveis evolutivos”;
  • a apropriação de saberes orientais fora de seus contextos históricos;
  • a promessa de elevação espiritual individual desvinculada de transformações sociais concretas.

Esse movimento surge em pleno contexto imperialista europeu. A espiritualidade universalista servia, muitas vezes, como justificativa simbólica para o apagamento cultural do Oriente e de países colonizados.

O Movimento de contracultura e a espiritualidade New Age

Nos anos 1960 e 1970, a espiritualidade ligada à New Age se aproxima da contracultura ao compartilhar críticas importantes. Nesse contexto, surgem o questionamento das religiões rígidas, da moral conservadora e do modelo industrial que organizava a vida no Ocidente. Ao mesmo tempo, a busca por experiências ampliadas de consciência passa a ser entendida como uma forma legítima de ruptura com uma visão de mundo considerada limitada e excessivamente racional.

No entanto, esse movimento começa a apresentar tensões quando a ideia de transformação passa a ser compreendida quase exclusivamente como um processo interno. Gradualmente, a mudança do mundo deixa de ser pensada como resultado de organização política, conflito social e ação coletiva e passa a ser interpretada como consequência natural de indivíduos mais conscientes, equilibrados ou “evoluídos”.

A partir desse deslocamento, a espiritualidade perde parte de sua capacidade de confronto. Ao não precisar se posicionar diretamente diante das estruturas de poder, ela se torna progressivamente compatível com a ordem existente. Assim, embora a crítica não desapareça por completo, ela perde força prática, e a mudança prometida deixa de incidir de forma concreta sobre o mundo material.

Capitalismo espiritual: o sagrado integrado ao mercado

A partir dos anos 1980, a espiritualidade New Age deixa de ocupar um lugar marginal e passa a circular livremente dentro do mercado. Suas ideias são reorganizadas para caber na lógica do capitalismo contemporâneo, que valoriza desempenho, autocontrole e responsabilidade individual acima de qualquer leitura coletiva da realidade.

Nesse cenário, o sofrimento perde suas causas sociais e históricas. Ele passa a ser explicado como bloqueio interno, falta de alinhamento ou atitude mental inadequada. Crises econômicas, exploração do trabalho e instabilidade deixam de ser problemas do sistema e passam a ser interpretadas como falhas pessoais de pensamento, energia ou vibração.

A espiritualidade, então, funciona como promessa de alívio emocional sem confronto com as estruturas que produzem o sofrimento. Ela ajuda a suportar o mundo como ele é, em vez de questionar por que ele funciona assim. O discurso é suave, amoroso e positivo, exatamente por isso, se encaixa tão bem na lógica neoliberal.

Hierarquia espiritual e racismo simbólico: a falsa neutralidade da consciência

Um dos pilares mais persistentes da espiritualidade New Age é a noção de hierarquia espiritual, herdada diretamente da teosofia: a ideia de que indivíduos, povos ou culturas se encontram em diferentes “níveis de consciência”. Embora apresentada como conceito neutro ou evolutivo, essa lógica reproduz uma estrutura profundamente excludente.

Ao deslocar desigualdades históricas para o campo da consciência, a espiritualidade New Age converte opressões materiais em falhas individuais de percepção ou vibração. Povos racializados, populações empobrecidas e grupos historicamente explorados passam a ser lidos como “menos conscientes”, “menos despertos” ou “presos à matéria”.

Trata-se de uma forma sofisticada de racismo simbólico: não opera pela biologia, mas pela espiritualidade. Ela mantém intactas as hierarquias coloniais ao mesmo tempo em que se apresenta como universalista, amorosa e inclusiva. A linguagem muda; a estrutura permanece.

A transição de Netuno de Peixes para Áries: mudanças no clima coletivo

Netuno é um planeta geracional, associado a temas como ideologia, espiritualidade, crenças coletivas, ilusões, dissoluções e processos inconscientes. Seu movimento entre signos marca mudanças lentas, porém profundas, na forma como sociedades constroem sentido, fé e narrativas coletivas.

Durante sua passagem por Peixes, signo que rege, Netuno intensificou fenômenos como:

  • aumento da sensibilidade coletiva e da empatia,
  • enfraquecimento de limites claros (emocionais, políticos e simbólicos),
  • crescimento de discursos espiritualizados, mas também de confusão, escapismo e desinformação,
  • dificuldade de ação objetiva diante de crises globais.

Com a entrada de Netuno em Áries, há uma mudança significativa de dinâmica. Áries é um signo de iniciativa, afirmação e ação direta. Nesse novo ciclo, temas netunianos deixam de operar principalmente no campo da dissolução e passam a buscar expressão por meio da ação, da identidade e do conflito. Ideais, crenças e visões de mundo tendem a se manifestar de forma mais ativa, confrontacional e individualizada.

Há uma tendência à espiritualização da luta, do ativismo e da identidade, o que pode gerar tanto engajamento quanto polarização.

De forma geral, Netuno em Áries inaugura um período em que a questão central deixa de ser apenas a percepção dos problemas e passa a ser a forma como as pessoas escolhem agir a partir de suas crenças, com maior urgência, menor tolerância à ambiguidade e maior disposição ao confronto.

O que se inaugura na temática da espiritualidade

Durante o trânsito de Netuno em Áries, entre 2026 e 2039, há uma mudança importante na forma como a espiritualidade e os sistemas de crença se manifestam coletivamente. Diferente do período anterior, marcado por maior abstração e idealização, esse ciclo exige que valores espirituais sejam testados na prática e em interação direta com a realidade social, política e material.

Nesse contexto, crenças que se sustentam apenas no discurso tendem a perder força. Ganha relevância uma espiritualidade capaz de considerar o contexto histórico, reconhecer limites concretos e assumir responsabilidade ética pelas próprias ações. Ideais precisam demonstrar coerência entre intenção e prática.

Trata-se de um período menos voltado à busca por elevação simbólica ou neutralidade universal e mais focado em posicionamento, responsabilidade individual e ação consciente. A ênfase recai sobre a capacidade de sustentar escolhas, lidar com conflitos e assumir consequências, em vez de evitar tensões em nome de uma suposta harmonia.

De forma geral, Netuno em Áries desloca o eixo espiritual do conforto emocional para a presença ativa no mundo, colocando em evidência a relação entre crença, identidade e ação.

No Asas & Raízes acreditamos que espiritualidade se faz com responsabilidade, respeito e ação, afinal, estamos vivendo uma experiência terrena.

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